domingo, 1 de fevereiro de 2009

Prazer artificial


prazer artificial
O uso de remédios para problemas de ereção sem prescrição médica é cada vez mais comum. Saiba o que motiva esta atitude e por que os especialistas a condenam

POR GIULIANO AGMONT



As pílulas para tratamento de disfunção erétil tornaram-se um fenômeno de vendas. Mas não apenas por causa de homens com problemas de ereção, normalmente acima dos 40 anos de idade. Drogas como o Viagra, o Levitra e o Ciallis ganham cada vez mais adeptos entre jovens de 15 a 35 anos em busca de um melhor desempenho sexual ou simplesmente uma garantia de que não falharão. Não existem estatísticas que comprovem isso, mas os médicos garantem que a quantidade de prescrições passadas por eles não "bate" com os números apresentados pela indústria farmacêutica. Na verdade, basta uma conversa mais franca em rodas de amigos ou uma visita a qualquer farmácia do país, para descobrir que os inibidores da enzima fosfodiesterase V - a classe de remédios para impotência - passaram a ser tomados com a mesma naturalidade que antitérmicos ou remédios para dor de cabeça.

Segundo Celso Gromatzky, urologista e coordenador da unidade de me dicina sexual da Faculdade de Medicina do ABC (SP), é possível dividir em três grupos os usuários dos facilitadores de ereção sem receita médica. O primeiro é composto por homens mais velhos que têm disfunção erétil, mas não admitem o fato nem para si mesmos. Tomam o comprimido para "turbinar" a relação e não vêem a necessidade de ir ao médico. O segundo é formado por jovens saudáveis, sem problemas de ereção.

Eles tomam o remédio como se fosse uma droga recreativa, acreditando que vão melhorar o desempenho na cama e aumentar o prazer das mulheres. Por fim, estão os que carregam as pílulas a tiracolo por insegurança. Com medo de falhar na hora H, ficam mais tranqüilos se tiverem uma garantia de que conseguirão transar sem contratempos.

Nos três casos há problemas de desinformação. "O uso indiscriminado destes comprimidos é perigoso", alerta Celso Gromatzky. "Os mais velhos podem estar encobrindo uma doença cardiovascular grave, ou mesmo um diabetes, e os mais novos vão crescer com uma visão distorcida do que é se relacionar sexualmente. Já os que se escoram na segurança dos remédios com medo de falhar, certamente precisam de um acompanhamento psicológico." O médico diz ainda que o problema de ereção pode ser um efeito colateral de antidepressivos, ansiolíticos, antipsicóticos, remédios para doenças cardiovasculares e até fórmulas de emagrecimento. Ou seja, a pessoa vai tomar a pílula para corrigir um problema ocasionado por outra droga. "Por isso, a automedicação é um péssimo negócio. A falta de orientação pode transformar uma brincadeira ou um problema simples em um dano irreversível, físico ou emocional", avisa Gromatzky.

Do ponto de vista farmacológico, porém, os comprimidos para a disfunção erétil não fazem mal. Quer dizer, as pessoas que tomam, mesmo sem o aval médico, não correm riscos orgânicos por causa do remédio. "São drogas bastante seguras nesse sentido. A única coisa que não se deve fazer é ingeri-los juntamente com remédios para cardíacos que tragam nitrato em sua fórmula. Há risco de morte súbita. Mas esse dificilmente é o caso dos que tomam as pílulas sem prescrição", acredita o urologista. Ele garante também que não existem evidências de que a associação destas pílulas com bebidas alcoólicas e outros entorpecentes cause danos adicionais às pessoas (veja box).

Muleta emocional
Em compensação, psicologicamente, o estrago pode ser grande, em especial para os que recorrem às pílulas por insegurança. A droga torna-se uma "muleta" e o indivíduo passa a angustiar-se com tudo o que diga respeito a sexo. "É um círculo vicioso. O homem acredita que precisa do comprimido, mas tem vergonha de dizer isso à parceira e se sente culpado por achar que não está sendo ele mesmo na relação", explica a psicóloga Regina Gottsfritz Bastos (SP). "Resultado: o relacionamento acaba tendo uma vida curta porque o homem já entra pronto para não se envolver", afirma. Segundo a psicóloga, a insegurança masculina está associada a traumas que não necessariamente têm motivações sexuais. "Às vezes, uma demissão no trabalho, uma brincadeira mais constrangedora na escola ou qualquer situação que cause no homem uma sensação de impotência pode desencadear essa insegurança", revela a especialista Regina Bastos, que também associa o medo de falhar ou a própria falha às crises de pânico, cada vez mais freqüentes.

O USO DESTES REMÉDIOS SEM PRESCRIÇÃO MÉDICA PODE MASCARAR PROBLEMAS SÉRIOS, COMO DOENÇAS CARDIOVASCULARES E DIABETES QUE PODEM TER COMO SINTOMA A DISFUNÇÃO ERÉTIL. PSICOLOGICAMENTE, OS ESTRAGOS TAMBÉM PODEM SER GRANDES. A FALTA DE ORIENTAÇÃO LEVA A DANOS IRREVERSÍVEIS, FÍSICOS OU EMOCIONAIS

MEDO DE FALHAR? BUSQUE APOIO PSICOLÓGICO

ELES NÃO PROLONGAM A EREÇÃO EM QUEM NÃO TEM DISFUNÇÃO ERÉTIL



Isso significa que a insegurança pode evoluir para um problema de ereção concreto, quando a pessoa está sob forte estresse emocional. "O estresse pode alterar a qualidade da ereção", enfatiza o urologista Celso Gromatzky. "Mas não adianta tomar uma pílula para garantir a transa.

A pessoa resolve o sintoma e não a causa da falta de ereção. Claro que é positivo que a medicina disponha destes medicamentos em seu arsenal terapêutico, mas não é o paciente que deve tomar a decisão de usá-lo."

O ESTRESSE PODE ALTERAR A QUALIDADE DA EREÇÃO

Na verdade, estão no centro do problema de uso desses remédios, sem orientação médica, questões como masculinidade, virilidade e potência sexual. Tanto o homem inseguro quanto o que utiliza as pílulas de forma recreativa quer afirmar sua masculinidade. Para os jovens que tomam Levitra, Ciallis, Viagra - e até medicamentos "piratas" trazidos do Paraguai - com o objetivo de melhorar a performance sexual há, inclusive, muita fantasia. De acordo com Celso Gromatzky, existe pouca informação sobre o efeito dos remédios em pessoas sem disfunção erétil, mas sabe-se que a ação deles tem limites.

"Eles não melhoram nem prolongam a ereção. O máximo que fazem é diminuir o período de latência do pênis.

Ou seja, o homem consegue diminuir o intervalo entre uma transa e outra", afirma o urologista. "Resta saber se isso é realmente necessário para um jovem que normalmente precisa apenas de alguns minutos para se recompor de uma transa."

Um publicitário de São Paulo, de 30 anos, que preferiu não se identificar, tomou, mais de uma vez, remédios para disfunção erétil. "Era um 'presente' para as minhas parceiras. Podiam se divertir à vontade que eu mantinha a ereção. Chegava a fi- car nesse jogo por sete horas, talvez mais", conta. "Mas teve uma vez que não deu certo. Tomei meio comprimido e, depois da primeira transa, sentimos falta de uma 'química' entre nós e a coisa parou por ali. Na verdade, é difícil dizer o que é efeito do remédio e o que não é." Para o urologista Celso Gromatzky, provavelmente o rapaz teria o mesmo desempenho caso tivesse tomado uma pílula placebo achando que era uma pílula para ereção. "É possível", concorda o publicitário, que não se recrimina por ter experimentado as drogas, mas também não faz apologia.

O ESTRESSE PODE ALTERAR A QUALIDADE DA EREÇÃO

Outro garoto, este com 23 anos, também usou a pílula. "Eu, uma amiga e um amigo dividimos um comprimido que ela encontrou no quarto do avô", lembra. "A transa foi boa, mas não senti que o remédio tenha mudado alguma coisa." Nesse caso, fica evidente a confusão que existe em torno do assunto, já que até a menina tomou a droga para ereção. Outro aspecto é o fácil acesso ao medicamento. "A gente não precisou comprar, mas conheço muita gente que pega a sua cartelinha em qualquer farmácia", conta o jovem.

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