domingo, 1 de fevereiro de 2009

"Remédios na gravidez: tomá-los ou não?


"Remédios na gravidez: tomá-los ou não?

Usar medicamentos na gestação é contra-indicado, mas às vezes eles são necessários, desde que haja indicação médica. Entenda aqui os riscos de tomar drogas sem receita

Por Cristina Nabuco



O resultado positivo de um exame de gravidez quase sempre produz uma reviravolta nos hábitos femininos. A futura mamãe passa a caprichar na dieta, desacelera o ritmo de trabalho, diminui os passeios noturnos, pára de pintar os cabelos e até larga o cigarro. Tudo para proteger o herdeiro.

Mas se um resfriado atravessa seu caminho, você fica tentada a tomar um comprimido para aliviar a dor de cabeça ou algum xarope contra a tosse que atrapalha seu sono. Será que pode? Quem não quer arriscar, às vezes, substitui os medicamentos convencionais por chás, na crença de que "se for natural, mal não há de fazer". Pois saiba que o uso indiscriminado de remédios é totalmente condenado na gravidez - e isso inclui formulações à base de plantas.

A exposição a certos compostos químicos pode causar danos graves ao feto: malformações, deficiências funcionais, retardo do crescimento e até morte. "Nenhum medicamento deve ser tomado sem orientação do obstetra. Mesmo se for prescrito por outro especialista, o médico que acompanha a gestação deve ser informado", recomenda a ginecologista e obstetra Silvana Chedid, diretora do Centro de Reprodução Humana do Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo.

O cuidado deve ser maior nos três primeiros meses, quando se formam todos os órgãos do bebê. "Nessa fase, remédios são desaconselhados sem indicação médica, até fitoterápicos, vitaminas e florais", confirma o infectologista e especialista em medicina chinesa Alex Botsaris, autor do compêndio Medicina complementar (Ed. Nova Era).

Tudo o que a mãe ingere passa para o feto. Durante muito tempo acreditouse que a placenta interceptasse agentes nocivos. A trágica experiência com a talidomida derrubou essa tese. Empregada largamente entre 1957 a 1962 para alívio de enjôos, ela provocou o nascimento de milhares de crianças com deficiência nos braços e nas pernas, além de distúrbios cardíacos, renais e de surdez.

Vários casos de aborto também foram atribuídos ao remédio, hoje restrito aos portadores de hanseníase. Desde então, os médicos têm sido extremamente cautelosos na hora de receitar algum remédio para gestantes.

Os nomes dos bandidos

Estudos mostraram que algumas drogas são bastante nocivas. É o caso dos retinóides (congêneres da vitamina A), em especial a isotretinoína, indicada para quadros graves e persistentes de acne: acarreta anomalias no sistema nervoso como hidrocefalia e retardo mental, defeitos no aparelho cardiovascular e alterações no crânio, especialmente nas orelhas.

Por sua vez, a warfarina, utilizada para o controle da pressão arterial, pode causar aborto, defeitos sérios no sistema nervoso e hemorragia cerebral. Dois princípios ativos contra convulsões são acusados de alterar a formação da espinha do nenê: a carbamazepina e o ácido valpróico, esse último também receitado para prevenir crises de enxaqueca. E os fármacos para tratamento de câncer (quimioterapia) podem prejudicar o desenvolvimento do feto como um todo porque interferem na divisão celular.

Medicamentos à base de ervas (fitoterápicos) também oferecem riscos. A farmacêutica e sanitarista Elizabeth Michiles, coordenadora do Programa de Plantas Medicinais da Secretaria da Saúde do Estado do Rio de Janeiro elaborou uma lista com 42 plantas perigosas na qual figuram algumas muito populares: a cáscara sagrada, laxante natural, pode causar contrações antes do tempo, com possibilidade de aborto e parto prematuro; o guaco, com o qual se faz xarope contra tosse, oferece risco de hemorragias; e a hortelã, consumida na forma de chá contra gripes e resfriados, pode causar malformações, se utilizada em altas doses. Como tempero, na culinária, ela é liberada.

Até uma simples vitamina consegue fazer estragos. O excesso de vitamina A é associado a malformações. "Muitas gestantes necessitam de suplementação de ácido fólico, ferro e cálcio, entre outros nutrientes. Mas nem todos os complexos vitamínicos são adequados nessa fase", avisa Silvana Chedid. Outros remédios são desaconselhados, não porque mostraram algum possível dano, mas por faltarem estudos atestando sua segurança na gravidez. "Por isso, é melhor evitar remédios a todo custo, a menos que seu uso seja de extrema necessidade, com recomendação médica", orienta a obstetra.

O que fazer com problemas comuns?

Enjôos: Fracione as refeições para não ficar muitas horas em jejum. Prefira alimentos gelados e evite comida gordurosa. Se não resolver, os médicos, às vezes, prescrevem dimenidrinato isolado ou associado à vitamina B6 ou metoclopramida.Após o quarto mês pode ser usado chá de gengibre.

Outra opção é a acupuntura, que dá bons resultados em casos de náuseas e vômitos e é permitida desde o começo da gestação, avisa o médico João Bosco Guerreiro da Silva, autor de uma pesquisa para tese de doutorado na Unifesp sobre o uso das milenares agulhas nesse período.

Resfriados: Dores e febre são controladas com paracetamol, mediante prescrição médica. Os descongestionantes nasais estão na lista negra. Podem estreitar os vasos da placenta e comprometer o fluxo de sangue para o bebê. É melhor pingar nas narinas soro fisiológico ou fazer inalação só com o soro.Cuidado com as drogas contra tosse, especialmente as que contêm codeína e formulações à base de guaco. Prefira mel com limão.

Enxaqueca: A dor de cabeça pode melhorar, piorar ou ficar inalterada na gravidez.Analgésicos mais fortes não são recomendados e os remédios para prevenir as crises também estão fora de questão.O médico pode recomendar paracetamol e, como segunda opção, dipirona, mas com cautela.A acupuntura também traz alívio.

Insônia: Leite quente com mel antes de dormir pode trazer conforto. Massagens relaxantes e acupuntura também são boas dicas.Após o quarto mês, se o médico aprovar, existe a possibilidade de utilizar chá de melissa.

Inchaço: Reduza o sal na comida, descanse com as pernas elevadas e faça exercícios físicos para ativar a circulação.Após o quarto mês,Alex Botsaris sugere chá de salsa.

Às vezes a medicação se torna imprescindível porque a gestante apresenta algum distúrbio que pode trazer complicações importantes para a gravidez ou colocar sua vida em perigo. Daí a falta de tratamento compromete mais a mãe ou o filho do que o remédio em si. Silvana Chedid aponta alguns casos:

Toxoplasmose: Transmitida pelo contato com fezes de gato contaminadas ou alimentos mal lavados ou malcozidos, pode causar malformações graves como cegueira, retardo mental e dilatação dos vasos cranianos. Como nem sempre produz sintomas, os obstetras solicitam testes sangüíneos periódicos e, se encontram sinal dela, iniciam o tratamento que possibilita à criança um desenvolvimento normal.

Doenças infecciosas: A mais comum é a infecção urinária, que se não for bem tratada com antibióticos, pode acarretar parto prematuro. Existem antibióticos seguros para uso na gravidez, prescritos quando o distúrbio é diagnosticado por exames, não na suspeita de infecção.

Corrimentos vaginais: Aqueda na imunidade que ocorre nos nove meses torna as gestantes mais predispostas a inflamações genitais. A falta de tratamento pode levar ao parto prematuro. A maioria dos cremes vaginais é permitida na gravidez.

Distúrbios da tireóide: O hipotireoidismo é um quadro bastante comum e requer tratamento porque a falta do hormônio da tireóide na gestação está relacionada a uma certa diminuição do QI do bebê, trazendo como conseqüências dificuldades de aprendizado na idade escolar. O excesso de hormônio (hipertireoidismo) também traz prejuízos.

Hipertensão: Se não for controlada, a elevação da pressão arterial da mamãe ocasiona retardo no crescimento intrauterino, parto prematuro e nascimento de bebês de baixo peso. Estudos comprovaram a eficácia e a segurança de algumas drogas anti-hipertensivas como certos betabloqueadores.

Diabetes: Taxas altas de açúcar no sangue da gestante podem levar a malformações e à morte fetal. Os hipoglicemiantes orais (remédios usados para abaixar a glicose) não são indicados nesse período. O tratamento, portanto, é feito com insulina.

Epilepsia: Embora as drogas para controle do distúrbio não sejam totalmente isentas de riscos (estão ligadas a malformações raras), é preciso avaliar bem a relação custo/benefício. Crises convulsivas freqüentes podem comprometer a oxigenação do bebê. Por isso os remédios são mantidos.Em todos esses casos, a decisão de como encaminhar o tratamento deve ser tomada pelo médico. Essa regra também se aplica aos remédios homeopáticos.

Segundo o ginecologista, obstetra e homeopata Francisco Villela, da Associação Médica Homeopática do Estado do Rio de Janeiro, a maioria não tem contra-indicação na gravidez, porque tais medicamentos são bastante diluídos durante a preparação, o que reduz o perigo de efeitos tóxicos. Mas ainda assim, a gestação é um período em que a mulher está mais sensível e mesmo a homeopatia não deve ser usada por conta própria

E quanto aos antidepressivos?

Continua valendo a regra geral de suspender qualquer medicação durante a gravidez, especialmente no primeiro trimestre.Mas é preciso considerar outros fatores. Se a gestante tiver depressão leve, uma psicoterapia é suficiente para ajudá-la a recuperar o equilíbrio emocional.

Mas em casos moderados e graves, talvez não seja o bastante. "Quando o risco de suicídio é grande, não tem jeito, o antidepressivo precisa ser administrado", argumenta o psiquiatra paulista Cyro Masci."Mulheres com depressão crônica são mais vulneráveis à depressão pós-parto, por isso, a medicação não é interrompida", justifica a obstetra Silvana Chedid.

Sabe-se hoje que alguns antidepressivos são mais seguros do que outros, mas a troca de remédios não é automática. A decisão deve ser tomada em conjunto: o psiquiatra, o ginecologista e a futura mamãe.

Nenhum comentário: